Avaliação Cinemática em Equinos de Marcha

Desde que o homem se aproximou dos equinos há milhares de anos atrás, ele tem buscado incessantemente entender o que os torna tão espetaculares.

Através dos tempos, os equinos têm se aprimorado nas mais diversas funções, como resultado da atuação do homem numa interação entre Ciência e Arte.  Arte, associada à definição dos objetivos e características de seleção que cada criador traça com seu feeling, ou que os cavaleiros e treinadores utilizam para avaliar a evolução de seus animais. Ciência, no desenvolvimento e aplicação de estudos da morfologia, da fisiologia e de tudo aquilo que interfere no desempenho animal. Nada mais excitante do que acompanhar a evolução de um animal desejado, que se inicia na escolha do acasalamento, passa pela gestação, tendo o primeiro ápice no nascimento do potrinho.

Depois vem o acompanhamento do seu desenvolvimento até o auge, que é o momento de montá-lo seja para um passeio ou competição. Temos assistido nos últimos tempos grande evolução das tecnologias, dentre elas aquelas relacionadas com a filmagem ou cinematografia com posterior análise em computador de equinos em movimento. Este artigo discutirá o emprego dessas tecnologias, explicando como são realizadas, quais os dados obtidos e algumas de suas aplicações.

A locomoção equina é algo que envolve movimentos dos vários segmentos do corpo animal, sobretudo dos membros, com diferenças em seu ritmo e cadência que irão caracterizar os diferentes andamentos. Como andamentos naturais, ou seja, aqueles herdados dos ancestrais, podemos citar inicialmente o passo, o galope, o trote, a andadura e as marchas.

O passo é um andamento mais lento e o galope o mais rápido. Como andamentos de velocidade intermediária temos o trote, a Andadura e as Marchas, que no Brasil tem despertado grande atenção dos Criadores de importantes raças e dos praticantes de cavalgadas, não faltando polêmicas a respeito delas. Na grande maioria das vezes a avaliação se dá pela visualização a olho nu dos animais, sendo esse modelo o mais rápido e acessível, porém bastante contraditório em conceitos e interpretações.

A equitação é a forma que vai direto ao ponto de utilização dos animais, mas também se revela repleta de interpretações dispares. A avaliação a partir da filmagem em câmera de alta velocidade à 240fps com posterior análise em um computador utilizando programas de biomecânica, revela detalhes imperceptíveis ao mais treinado olho humano. Os dados coletados fornecem informações detalhadas e precisas do desempenho animal. Para sua realização são necessárias uma câmera de alta velocidade, um computador com programa apropriado e uma pista plana com 7metros de comprimento, com piso firme de boa aderência e que permita a visualização do contato de cada parte do casco com solo. 

 

Nessas análises podem ser levantadas e analisadas as seguintes variáveis:

  • Pista – Avalia a sequência de pegadas (marcas deixadas pelo casco quando toca o solo) dos membros posteriores em relação aos anteriores, sendo possíveis três situações:retropegada, sobrepegada ou ultrapegada.
  • Comprimento da passada – avalia o deslocamento do animal, sendo tomada pela medida linear em centímetros existente entre duas pegadas sucessivas do membro anterior direito.
  • Frequência da passada – avalia a rapidez dos movimentos, sendo tomada pelo número de toques ao solo do anterior direito a cada. Expressa em passadas por segundo ou Hertz.
  • Velocidade da passada – Relação entre deslocamento em função do tempo, expressa em metros por segundo (m/s) ou quilômetros por hora(km/h).
  • Percentual de apoio:Quantifica a proporção de tempo de cada um dos possíveis apoios em relação à passada completa sendo observadas as seguintes combinações de apoios:Bipedais diagonais; Bipedais laterais; Tríplices anteriores; Tríplices posteriores; Suspensão; Quadrupedais; Monopedais anteriores; Monopedais posteriores; Bipedais anteriores; Bipedais posteriores:
  • Sequência de apoios – Também chamada de ‘diagrama da marcha’, avalia-se e quantifica-se a sequência em que cada uma das combinações de apoios ou sua ausência são apresentadas por cada animal em uma passada completa.
  • Simetria – para cada animal foi avalia-se a simetria entre apoios dos membros individualmente ou seja, a quantificação do tempo de apoio de cada membro ou ainda. Calcula-se também a simetria entre bípedes (dois membros), podendo ser Longitudinal – Relação entre a soma dos tempos de apoio dos membros anteriores e a soma dos posteriores; S. Lateral – Relação entre a soma dos tempos de apoio dos membros de um mesmo lado e a soma do lado;S. Diagonal – Relação entre a soma dos tempos de apoio dos membros de uma diagonal e a soma da diagonal oposta.
  • Dissociação – Avaliou-se o tempo decorrido em quadros entre o tempo de apoio de um membro anterior e o apoio do membro posterior da sua diagonal e posteriormente calculada uma fórmula entre as duas diagonais conforme descrito a seguir:

Observe os dados de um dos animais avaliados como exemplo a seguir:

 

Tabela 1 – Velocidade em quilômetros por hora, comprimento em centímetros, frequência das passadas e pista apresentadas por dois diferentes animais.

Animal Velocidade (km/h) Comprimento (cm) Frequência (Hz) PISTA (R,S,U)
1 12,8 225 1,6 Sobrepegada
2 13,1 229 1,6 Sobrepegada

 

Tabela 2–Percentual das diferentes combinações de apoios apresentados em uma passada completa por dois diferentes animais.

Animal Bipedais diagonais Bipedais laterais Tríplices anteriores Suspensão Monopedais posteriores
1 93,4% 0,6% 3,7% 0,0% 2,3%
2 96,5% 0,0% 0,0% 2,7% 0,8%

 

Tabela 3 –Avaliação da simetria entre os membros, Anterior Esquerdo(AE), Anterior Direito(DE), Posterior Esquerdo(PE), Posterior direito(PD) e entre os bípedes Laterais, diagonais e longitudinais em uma passada completa de dois diferentes animais.

Animal AE AD PE PD Laterais (AD+PD/AE+PE) Diagonais (AD+PE/AE+PD) Longitudinais (AD+PD/AE+PE)  
 
1 0,49 0,50 0,50 0,51 1,02 1,00 0,98  
2 0,48 0,48 0,51 0,52 1,01 0,99 0,93  

 

Tabela 4 –Avaliação da dissociação dos membros durante uma passada completa de dois diferentes animais.

Animal Diagonal direita Diagonal esquerda Dissociação Total
1 -1 2 1,58
2 1 0 1

 *Valores =0 indicam ausência de dissociação; valores negativos da dissociação diagonal, indicam que o membro anterior tocou o solo antes do membro posterior da sua diagonal

 

Se observarmos os dados nas tabelas evidencia-se precisamente as diferenças entre os dois animais.  De forma resumida observa-se que o animal 1 é mais dissociado, não apresenta suspensão e ainda apresenta tríplices apoios além de ser mais simétrico e dissociado. Essas informações poderão ser muito úteis nos criatórios ou para associação de criadores. Os criadores e treinadores de posse dessas informações, definirão pontos onde se pode atuar para melhorar o desempenho dos animais de seu rebanho, ou mesmo, utilizá-los na seleção de animais para reprodução e orientação para acasalamentos.

A avaliação de grande quantidade de animais, como a Associação dos Criadores do Mangalarga tem feito nos últimos anos, permite caracterizar seus animais de elite, avaliar a evolução da raça e disponibilizar parâmetros aos criadores para melhoria de seus criatórios. Com eles pode-se definir prioridades dos julgamentos e aindautilizar como auxílionos treinamentos realizados com o corpo técnico.

O rápido desenvolvimento das tecnologias as torna cada vez mais acessíveis e indispensáveis de serem aplicadas em uma Equideocultura crescente em competitividade. Aqueles que a souberem utilizar, estarão dando um passo à frente no sentido do conhecimento e melhoria de seus rebanhos e raças. 

Colaboração: Thiago D’Angieri, com Alessandro Moreira Procópio, professor de Melhoramento Animal e Equideocultura, diretor da AEQUITAS. Contato: procopioam@yahoo.com.br

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